Por onde começar com a biotensegridade?
Usar este conceito teórico na prática é verdadeiramente difícil e não linear, no entanto, para mim, tem de começar pela mudança da forma como vemos o corpo.
Há já muitos anos que dizia que o corpo é uma coisa só, devemos olhar para o corpo como um todo, mas depois fazia avaliações e intervenções muito mais locais que globais...
Só com a biotensegridade pude mesmo começar a observar e abordar o corpo como um todo. E para mim partiu da noção de matéria mole. Mais do que o modelo de tensegridade em si, a experiência do oobleck deu-me uma referência inicial mais aplicável. Já consigo descolar-me da noção dos ossos e músculos dos paus e dos fios, mas no princípio, senti que a estética do modelo de tensegridade desajuda mais do que ajuda...
O icosaedro é uma representação de comportamento, não de estrutura gráfica. A superestabiliade, a influência de cada parte no todo, as respostas às forças exercidas sobre o modelo.
Logo após a matéria mole, a noção de distribuição em vez de concentração, partindo da definição do stress, ou força por área, que se completou com a noção da profundidade, através da manifestação das pregas cutâneas, que demonstra a importância de considerar uma heterarquia dos tecidos, em vez de apenas pensar em músculos como os reis do movimento.
Em terceiro lugar, a noção de fáscia, não como um tecido separado do resto, mas como todos os tecidos em conjunto serem variantes dessa mesma fáscia, com densidades diferentes, mas que formam o "tecido" do qual o corpo é fabricado. É tudo uma coisa só.
Partindo disto para o movimento, para além de observar as organizações locais, observar a relação global das partes do corpo em movimento e os padrões/expressões começam a surgir de outra maneira.
Em termos de referências para o movimento, no meu trabalho, em vez de observar a organização das articulações em si, as amplitudes propriamente ditas ou as formas, passei a estar mais sensível à relação entre as partes, o que está a acontecer no todo, por onde se inicia o movimento, onde existem "bypasses" ao movimento, zonas que não comunicam movimento ou por onde o movimento não passa. E tentar conciliar essas observações com o que sei de corpo, com o que os alunos sentem, contam, com a sua história, etc.
Neste sentido, só com esta visão do corpo consigo realmente personalizar cada sessão e ir de encontro às necessidades do momento dos alunos.