sexta-feira, 6 de março de 2026

O mecanicismo da biologia

Um modelo criado para máquinas e estruturas industriais foi aplicado ao corpo humano. Esse modelo foi extremamente útil em engenharia, mas é ontologicamente pobre para descrever sistemas vivos.

Como isto aconteceu.

O nascimento do paradigma mecânico do corpo (século XVII–XIX)

René Descartes

Descartes introduziu a metáfora que dominou a ciência ocidental:

“O corpo é uma máquina”

Descarte teve que separar as “coisas do corpo” das “coisas do espírito”, deixando estas para a igreja, e assim pode continuar a estudar o corpo humano, morto, decompondo-o naquilo que conseguia individualizar como órgãos, etc. A separação das “partes”, a sua individualização, foi feita de forma arbitrária. Separaram aquilo que conseguiam ver a olho nu, tudo o resto que aparecia “colado” às partes mais visíveis (músculos, ossos, etc.) era descartado como “lixo”, como não importante.

Na época isto foi revolucionário porque permitiu:

  • estudar o corpo sem recorrer a explicações espirituais
  • desenvolver anatomia moderna
  • desenvolver cirurgia

Mas trouxe também um pressuposto silencioso:

corpo = mecanismo composto por peças

E se existem peças:

  • peças fracas
  • peças que se estragam
  • peças que se desgastam
  • peças que precisam de reforço

Estes pressupostos silenciosos são ainda mais graves porque representam a forma como lidamos com o corpo, de facto. Achamos que o corpo está estragado quando não funciona dentro dos parâmetros considerados normais, porque em máquinas iguais as peças têm que ser iguais e têm que funcionar de forma também igual. Mas no corpo encontramos funcionamentos e formas parecidas, mas nunca iguais. Achamos que o corpo se desgasta, como acontece, naturalmente, nas peças de uma máquina, e parece mesmo que há um desgaste de “partes” ou “peças” no corpo. No corpo não há desgastes, há transformações. adaptações, reconfigurações, onde determinados tecidos parecem desaparecer e ser substituídos por outros, parece que foram consumidos. Quando algum local do nosso corpo dá sinal de que algo está diferente do habitual, através de sinais de dor, por exemplo, achamos que estes lugares estão mais fracos e que precisam de reforço, reforço muscular, normalmente. Talvez o que entendemos como fraco possa ser devido a uma acumulação localizada de tensão, excesso de esforço local.


A influência da engenharia do século XIX

No século XIX surge a engenharia estrutural moderna.

Dois conceitos fundamentais surgem aqui:

1. fadiga dos materiais

materiais quebram após ciclos de carga.

2. fatores de segurança

estruturas precisam de reforço para não falhar.

Exemplo:

  • ponte
  • locomotiva
  • navio

Se a carga ultrapassar o limite → falha estrutural.

Este modelo está completamente certo quando aplicado às máquinas, aliás este conhecimento resulta da observação do funcionamento das máquinas.


Quando este modelo entra na medicina

No final do século XIX e início do século XX, anatomistas e ortopedistas começam a usar metáforas de engenharia para descrever o corpo:

  • alavancas
  • pilares
  • articulações como dobradiças
  • músculos como cabos

A coluna vertebral passa a ser descrita como:

uma pilha de blocos (vértebras)
separados por amortecedores (discos)

A atribuição de funções específicas a cada uma das “estruturas” ou “peças” (ex, as articulações servem para dobrar) é feita por meio de observação do corpo como uma máquina, é feita olhando somente as “partes” do corpo que queremos catalogar. Se olharmos o corpo como o todo que ele é, a atribuição de funções a determinadas “peças” talvez seja diferente ou deixe de fazer sentido. O funcionamento do corpo pressupõe a interação conjunta e simultânea de todas as “peças”, logo a sua suposta função é colaborar com o que o corpo, como um todo, faz.

Pressupostos silenciosos:

  • compressão = perigosa
    • A compressão é distribuída pelos vários elementos de tensão, não é acumulada. A compressão no corpo é descontínua (modelo da biotensegridade), logo não se transmite de cima a baixo, por exemplo.
  • carga repetida = desgaste
    • Com carga repetida há adaptação, há reconfiguração
  • amplitude máxima = risco
    • Os materiais, mesmo os vivos, têm um limite físico ao stress (força por unidade de superfície) mas também têm uma muito maior capacidade de adaptação e esta não é linear, quer dizer, o aumento do stress não é diretamente proporcional à deformação causada, como acontece nos materiais inertes (na maioria destes, pelo menos)

Surge então a narrativa moderna:

“a coluna é frágil”; “a coluna precisa de reforço muscular para se sustentar”; “os discos intervertebrais são desgastados com a idade e o sobre uso”…


O problema: sistemas vivos não são materiais passivos

Materiais de engenharia:

  • aço
  • cimento
  • madeira

são estruturas passivas.

Eles não:

  • regeneram
  • reorganizam
  • adaptam-se estruturalmente

Já os tecidos vivos fazem exatamente isso.

Na biologia surgiu justamente a ideia de entropia negativa, ou anti-entropia. Toda a matéria inerte tende para um nível de energia mínima na sua estrutura que representa a sua “degradação”. A matéria viva tem a capacidade de manter a sua estrutura, de manter a vida, de se auto-regenerar, desde que haja a adição de energia do exterior (nomeadamente de alimento), logo tem a capacidade de contrariar a lei da entropia - pelo menos enquanto é viva.


A descoberta da adaptação biológica

Julius Wolff

Wolff mostrou algo radical:

o osso muda a sua estrutura em resposta à carga.

Isso significa:

  • carga não destrói necessariamente
  • carga organiza estrutura

Mecanismo de mecanotransdução.


materiais industriais tecidos vivos
passivos adaptativos
degradam com uso reorganizam com uso
falha progressiva remodelação
sem regeneração regeneração

Um exemplo simples

Um carro:

uso → desgaste → falha

Um corpo:

uso→ adaptação → capacidade variável

Dependendo do uso que é feito a capacidade do corpo vai ser diferente, vai variar, mas o corpo é sempre capaz, não se estraga!

Claro que existe dano biológico.

Mas a lógica fundamental é diferente.


A consequência cultural

Durante o século XX espalhou-se a ideia de que o corpo é:

  • frágil
  • vulnerável
  • propenso a desgaste

Isto influenciou:

  • ortopedia
  • fisioterapia
  • fitness
  • ergonomia

Frases típicas:

  • “poupe a coluna”
  • “não desgaste as articulações”
  • “não vá ao limite”

os sistemas vivos evoluíram para lidar com variação e carga.



A resistência não está nas partes, está na organização

O exemplo do cabelo

Um fio de cabelo é muito frágil.

Um conjunto organizado de cabelos é muito resistente.

O mesmo acontece em:

  • colagénio
  • tecido fascial
  • músculo
  • osso trabecular

A matéria viva não é frágil, o que é frágil é a matéria quando a retiramos da sua organização.

A fragilidade aparece quando a vida é reduzida às suas partes.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

segunda-feira, 31 de março de 2025

Dúvidas e respostas sobre biotensegridade e lesão

Olá, Deixo aqui mais umas perguntas da Patrícia e as minhas respostas. As perguntas estão escritas a preto e as respostas em castanho claro.

1-Imaginando uma escala de -10 a 10, em que o 0 corresponde ao estado de tensão ideal do corpo (inatingível na prática, mas que iremos procurar o estado mais proximo dele, em que lhe vou chamar de tensão basal).

Sim, na perspetiva da biotensegridade - e isto pode ser constatado de forma empírica, experienciada - o corpo tem sempre um nível de tónus de base, ou estado de tensão de base. Há sempre tensão latente no corpo, mesmo no estado de profundo relaxamento. Há uma "experiência" gira, que só os cirurgiões realizam, em que quando se corta um tecido mole, pele por exemplo, os bordos do corte afastam-se sempre, querendo isto dizer que estes tecidos estão sob tensão. Quando o mesmo é feito nos ossos, quando um osso se parte, os bordos aproximam-se, encavalitam-se, querendo isto dizer que estes tecidos estão sob compressão. Enquanto para reparar um tecido mole, pele, tendão músculo, etc., é preciso puxar os bordos um para ao outro, numa fratura óssea é preciso fazer bastante força para separar os bordos que estão encavalitados e muitas vezes colocar espaçadores que mantenham os bordos numa boa relação entre si para poderem solidificar novamente.

Imaginemos que num local das lordoses temos um 10, um local de acumulação de tensão, e portanto um local hipomovel que pode traduz se ou não em dor. 

Com base na lei da biomecânica, em que havendo um local hipomovel, existe uma compensação de hipermobilidade noutro local, então aqui nesta nova visão da biotensegridade o mesmo acontece? Ou seja, existindo um local de acumulação de tensão (acima do 0 na escala mencionada), haverá noutro local um local de "hipotensão" (abaixo de 0 na escala)??

Sim, está correto, na perspetiva da biotensegridade, se existe um local de acumulação de tensão, portanto de compressão, vai haver algum outro local em qua a tensão não está bem distribuída, e provavelmente este lugar estará hipermóvel.

Se sim, poderemos dizer que o nosso foco em devolver a mobilidade daquele local através da distribuição da tensão, iria indiretamente tornar mais estável o outro local hipermovel, uma vez que toda a cadeia miofascial extraarticular desse mesmo local ganharia mais tensão aproximando se do estado de tensão basal? 

Sim, esse é o raciocínio que eu faço quando procuro dar mobilidade nos locais onde há pouca mobilidade e onde, pela Natureza do local, há possibilidade de haver muito mais mobilidade. O Miguel mencionou a teoria do Joint-by-joint approach (Do Gray Cook e Mike Boyle) que analisa o corpo pelas partes, atribuindo os excessos de mobilidade nas zonas já de si móveis às faltas de mobilidade imediatamente abaixo e acima (articulações contíguas) e eu não estou a falar nesta perspetiva de querer dar mobilidade nos lugares do corpo que são naturalmente pouco móveis e de tentar fixar mais os locais que são naturalmente muito móveis. A questão é que, também de acordo com a perspetiva da biotensegridade, a transmissão de forças dentro do corpo, ao longo do corpo, na matéria que é o corpo, não é feita de forma linear nem determinista. As forças introduzidas no corpo, pelo esforço físico, pelo deslocamento ou pela manipulação manual, criam direções de linhas de força e podemos verificar o alinhamento, por exemplo, dos fibroblastos na direção da força aplicada. Mas não podemos dizer que o ponto A onde a força é aplicada, vai chegar ao ponto B. No corpo nada se move em linhas retas, tudo é espiralado e curvilíneo. Por isto mesmo também não podemos dizer onde está o excesso de mobilidade no corpo devido ao excesso de compressão em algum lugar. Talvez existam padrões, eu acredito nisso, e alguns dos padrões que vou reconhecendo nos corpos orientam o meu trabalho e as decisões que vou tomando durante a observação e facilitação dos meus clientes.

Onde quero tentar chegar é a pessoas que sofrem de luxações crônicas ou até mesmo pessoas com hiperlaxidez dos tecidos. Qual a tua visão nesse tipo de pessoas? Por norma todas as pessoas que tenho na clinica após luxações apresentam uma grande instabilidade e dor, mas aí não me faz sentido pensar em acumulação de tensão.

OK, acho que percebo o teu raciocínio. Quando há uma luxação do ombro, diz-se que o mesmo fica muito instável, com excesso de mobilidade e que por isso pode facilmente "saltar" da articulação da omoplata. Primeiro, falar da articulação do ombro é já em si uma grande abstração de interpretação da realidade. O complexo a que chamamos ombro tem uma série enorme de possibilidades de movimento (que não têm articulação no sentido tradicional onde dois ossos se movem um em relação ao outro), tem uma série de tecidos mio-fasciais (músculos, tendões, ligamentos, etc...) que apresentam linhas de tensão (ou de tração) muito diversas e todas diferentes. No meio desta complexidade que descrevi acho que é fácil admitir que numa luxação algumas destas linhas de tensão podem estar laxas e outras muito comprimidas, sendo o resultado geral de falta de "estabilidade" ou de falta de fixação do braço no tronco. Tem que haver alguma acumulação de tensão em algum lugar, mesmo que não seja em algum local afastado do ombro, uma vez que a tensão no corpo (segundo a biotensegridade) é contínua, se mexermos em algum lugar do corpo podemos ter todo o corpo a responder a esse estímulo.

Na abordagem da fisioterapia informada pela biotensegridade, são criados campos de tensão uniformes nas zonas onde exista instabilidade e "espera-se" que esta tensão uniforme induzida estimule a regeneração dos tecidos. Mesmo as alterações fisiológicas e bioquímicas podem ser induzidas pelo estímulo mecânico - mecanotransdução, ou por estímulos elétricos - eletroestimulação. Estes campos de tensão uniformes são induzidos usando materiais com características viscoelásticas porque têm o mesmo tipo de comportamento da matéria mole de que o corpo é feito. Esta abordagem vem do estudo da peridinâmica (a ciência que estuda o comportamento da transmissão de forças em superfícies compostas por materiais com comportamentos diferentes na transmissão de forças, na terra, como acontece num tremor de terra). Podemos falar mais deste tipo de procedimentos para entenderes do que estou a falar e eu sei que isto é MUITO fora... muito complexo...

Percebo que na prática do pilates (pelo menos com o pouco conhecimento dos exercícios que tenho) não interfira em nada na sequência, talvez um pouco de atenção nos exercícios que colocam o local na amplitude máxima (por exemplo numa pessoa com luxação crônica de um ombro), mas na teoria não consigo perceber o meu papel quanto na distribuição da tensão, porque para mim o local está exatamente num estado contrário.

O uso das molas de pilates reproduz o comportamento tensional que é descrito como organizador da estrutura do corpo pela biotensegridade. Ao aplicaresa exercícios de molas, lentos, fora das amplitudes e intensidades que levam à dor, estás a estimular a criação de campos de tensão uniformes que ... curam a estrutura.


2- no seguimento da pergunta da Inês, em que questionou se te faria sentido um jogador de futebol fazer trabalho de fortalecimento num ginásio e tu respondeste que não, mas a treinar resistência/força/ e gesto técnico no contexto da atividade desportiva dele.

 A minha questão é, se estivermos a falar de um pós operatório em que o objetivo ainda é ganho de massa muscular para a assimetria de força entre os membros, a tua resposta seria a mesma?

Sim, sobretudo nestes casos!

É que para mim faz todo o sentido esse trabalho no ginásio para um pós operatório, mas agora à luz da biotensegridade sei que o que estou a fazer também é criar acumulação de tensão no segmento que estou a trabalhar. Então, estou basicamente aqui num conflito mental de que me faz sentido esse treino de reforço, mas ao mesmo tempo não vai de encontro ao trabalho do corpo como um todo nem da distribuição da tensão que também me faz todo o sentido de trabalhar assim.

Então, do que falámos no fim de semana sobre a necessidade de criar primeiro as condições de estabilização do corpo entendidas como o sistema de amortecimento de forças no corpo, acho que podes entender o meu "sim, sobretudo nestes casos". Num pós-operatório vai haver, com certeza, uma destruição de todo o tecido fascial que é o que dá suporte ao amortecimento interno do corpo. Qualquer desenvolvimento de força que faças, para ser eficaz, terá que ter, primeiro, uma base de "sistema de amortecimento" instalado. E sabes, agora que penso nos protocolos de recuperação da fisioterapia de pós-operatórios, percebo que já se faz o que te estou a dizer. Nunca começas pela aplicação de cargas, num protocolo, primeiro aplicas os meios de eletroestimulação e de movimento passivo e suave e sustentado, mantido. Ao fazeres isto estás justamente a estimular a regeneração do tecido fascial, do colágeno, antes de começares a desenvolver a força ou o tecido muscular. Isto é muito importante de constatar: Algumas das práticas da fisioterapia, ou das fisioterapias porque são muitas as linhas que por aí andam tal como no pilates, são muito eficazes a tratar do corpo e a ajudar na regeneração dos tecidos, das inflamações, etc. Portanto, as práticas usadas são corretas uma vez que têm resultados muito positivos e consistentes. A teoria que sustenta essas práticas é que não consegue explicar aquilo que se faz e são arranjadas explicações (que não são questionadas) para o que se faz. Portanto, não é preciso conhecer a teoria por trás das práticas, uma vez que as práticas que usamos e que perduram no tempo são aquelas que são eficazes, que resultam e curam. Mas, se quiseres aprofundar, desenvolver e comunicar as práticas usadas no corpo, em fisioterapia ou fora dela, é  amis fácil se tiveres um corpo teórico e científico que, de facto, as sustente. Eu, nos primeiros anos de ensino de Pilates a instrutores tive sempre muita dificuldade em explicar o porquê daquilo que fazemos em Pilates porque a teoria e a ciência que tinha à minha disposição não se encaixava completamente, ou de todo.

Espero ter criado ainda mais dúvidas e alguns esclarecimentos. Se quiseres posso te pôr em contacto com um grupo de fisioterapia que estuda e aplica a visão da biotensegridade. Eles têm um curso sobre biotensegridade para fisioterapia, todo online e que é barato, mesmo barato, mas é em inglês.


segunda-feira, 24 de março de 2025

9º encontro reflexões

Boa tarde,

Deixo aqui algumas reflexões que me ocorreram da participação na apresentação brilhante do Manuel. O que escrevo aqui nem foi editado, escrevo-o tal como me foi saindo como reflexão escrita.

Facilitação - A história do treino do Messi, Ronaldo e "Xavi"
Para "facilitar" o treino uso situações de jogo 3*3, por exemplo, mas mantenho todos os ingredientes da situação de jogo. Não vou treinar os jogadores, por exemplo, fazendo remates à baliza, apesar deste ser o objetivo do jogo. Portanto, não vou decompor o jogo nas suas "partes", vou apenas criar alguns "constrains" para facilitar a adaptação, ou o treino. Esta é uma adaptação que respeita os princípios da biotensegridade, onde a simples soma das partes não fazem o todo. Se trabalhasse o remate ou o passe, qualquer gesto técnico, estava a considerar que essa "parte" isoladamente faz parte e aparece como tal no todo, no sistema. O passe isolado nunca parece no jogo, apesar de haver passes no jogo. Portanto, podemos identificar "partes" no todo, no sistema, mas essas "partes" isoladas não significam o mesmo que a "parte" quando é identificada ou vista no sistema, no todo. Este reconhecimento das "partes" apenas serve, ou apenas deve servir, para melhorar a capacidade de observação, ou para refinar a observação, do todo. Também podemos perceber esta sistematização, esta divisão nas "partes" como uma forma de fazer zoom in na observação, de observar a escalas diferentes, uma estratégia reconhecida pela biotensegridade que reflete a heterarquia dentro do sistema hierárquico.
Para "facilitar" a adaptação desejada, ou o efeito do treino que queremos, ainda no caso do futebol, podemos usar os "constrains" no sentido de dificultar a situação ou a prática. Por exemplo, no caso de um grupo de jogadores de alto nível, em vez de usar uma situação favorável de 3*3, podemos usar uma situação em que os "melhores" estejam em desvantagem, 2*3, desta forma estamos a potenciar as capacidades de adaptação, ou o potencial, daqueles.

Outro ponto muito interessante foi a "conclusão" a que o Manuel chegou de que apesar da linguagem usada para descrever o jogo como um sistema, apesar dos dirigentes e dos treinadores e outros intervenientes do sistema jogo de futebol referirem a importância da interdependência do todo, do processo, ao nível mais elementar, ao nível do jogador e da sua preparação para o jogo, as práticas continuam a ver as coisas por partes. O treino dos jogadores -e ele deu o exemplo do desenvolvimento do Ronaldo - não refletem uma visão sistemática da complexidade que é o jogador. Por exemplo, o Ronaldo, mostra um desenvolvimento físico que revela mais rigidez, menos agilidade. É um treino direcionado para o desenvolvimento das "capacidades físicas", da força, da flexibilidade, etc, em vez de ser um treino enquadrado no jogo, um treino que reflita e contemple a complexidade do sistema jogo de futebol.

domingo, 23 de março de 2025

9º encontro

Olá,

Deixo aqui o link para a gravação do 9º encontro que realizámos hoje.

O Manuel Castro apresentou as suas ideias e leituras sobre o Futebol informado pela biotensegridade.

https://youtu.be/SATLOAYe6io


sexta-feira, 7 de março de 2025

Dúividas e respostas sobre biotensegridade e força

Estas foram algumas das perguntas feitas sobre biotensegridade e produção de força. Acho que são bastante pertinentes e podem estar na cabeça de todos nós quando somos expostos a este novo paradigma. Talvez ajude alguns nas suas reflexões e pode fazer com que outro comecem a refletir.

Não editei as respostas, existem erros de ortografia e de construção de frases, etc. Desculpem-me por isso.


-Penso na distribuição da tensão quase como o retirar/diminuir da retração miofascial, que nos permite ganho de flexibilidade e consequentemente de mobilidade. Mas como é que isso nos permite ganhos a nível do fortalecimento? 

No modelo da biotensegridade, a estrutura do corpo é vista como sendo o resultado de um campo de tensão contínua e de “ilhas” de compressão descontínuas. No modelo tradicional, que ainda está em uso em muitos meios académicos, a estrutura do corpo resulta de um campo de compressão contínua e de “ilhas” de tensão descontínuas. Isto quer dizer que no segundo modelo referido - a que vou chamar biomecânica - a forma do corpo só se mantém se houver um alinhamento das supostas partes com a linha de ação da gravidade. Quando tal não acontece, segundo este modelo, a estrutura perde a sua integridade e aparecem as tais “ilhas” de tensão. No primeiro modelo referido - que chamo biotensegridade - a integridade do corpo não depende do alinhamento do mesmo com a linha de ação da gravidade e não existem partes no corpo, por isso não podes dividir o corpo em partes para analisar o seu funcionamento, tens sempre que considerar a sua totalidade. Segundo a biotensegridade, existe uma tensão, um tónus, de base no corpo que nunca se perde enquanto o corpo vive. A distribuição da tensão de forma equilibrada, ou o mais equilibrada possível, é o objetivo do trabalho com o corpo. O corpo não gosta de acumulação de tensão, gosta de distribuições, mas gosta de tensão. Já aqui é preciso rever este conceito, de tensão, que na nossa linguagem habitual tem uma conotação negativa e, na biotensegridade, passa a ser algo positivo, porque organiza e estrutura.

Além deste aspeto da definição de tensão, a biotensegridade considera a totalidade do corpo e não as suas supostas “partes”. Na visão tradicional do corpo - biomecânica - são os músculos (uma parte) responsáveis pela produção de movimento ou de força. A biotensegridade leva em linha de conta o todo, logo não são os músculos que produzem movimento, é o todo que produz movimento. Eu sei que  isto dito assim não faz qualquer sentido para nós (todos nós) que aprendemos o contrário, que são só músculos, que estão ligados por tendões aos ossos, que produzem movimento. Mas se pensares bem, e se tiveres oportunidade de assistir uma dissecação de cadáver, vai ver que há uma continuidade no corpo todo e que só consegues separar os músculos dos resto dos tecidos todos, da gordura, dos vasos, dos órgãos circundantes, das aponevroses, dos restante tecido facial que tudo envolve e tudo permeia, se cortares com um bisturi, se fizeres corte e costura no corpo. Por exemplo, os trilhos anatómicos definidos pelo Thom Mayers apenas existem porque ele os consegue cortar daquela forma, de outra forma são completamente indistintos quando abres o corpo. Assim, em biotensegridade, quando vemos um movimento acontecer, por exemplo, de flexão do cotovelo, não sabemos que o mesmo não é feito pela contração do bicípite mas sim pela RECONFIGURAÇÂO de todo o corpo, onde a contração do bicípite claro que acontece mas não podes considerar que seja o principal elemento responsável por aquela ação. Como podes dizer que a pele, a gordura, a fascia, os órgãos, etc, etc, não têm um papel pelo menos tão importante como o bicípite naquela ação? Podes dizer-me, com razão, que os estudos científicos e todos os manuais académico comprovam que são os músculos os responsáveis pela produção do movimento. Todos esses estudos desconsideram toda a informação que vem de outros tecidos e estruturas envolventes porque, como podes imaginar, é muito dífícil medir todo o ruído que vem de tanto lado ao mesmo tempo mesmo numa simples ação com uma flexão de cotovelo. A ciência “resolve” o problema partindo as coisas aos bocadinhos  e olhando apenas para um aspeto da realidade de cada vez. A vantagem é que consegues ver o bocadinho para onde olhas, a desvantagem (enorme no meu entender) é que perdes a realidade tal como ela é. O Descartes começou, ou pelo menos deixou escrito, que a mente deve ser separada do corpo… hoje em dia achamos quase piada a esta afirmação, claro, mas continuamos. O mesmo se passa na visão da estrutura do corpo. A biomecância baseia-se no estudo da mecânica, dos materiais inertes, que não têm um comportamento nada semelhante ao da matéria viva, embora às vezes pareça o contrário. Por exemplo, as máquina movem as sua partes em torno de eixos bem definidos, se não o fizerem começam a trabalhar mal porque estão desalinhadas, concordas? Usandoo modelo das máquinas fazemos o mesmo raciocínio para o corpo, dizemos que existem eixos de movimento  no corpo… e isso não é verdade, de todo!!! Isto deves saber pelo trabalho feito, por exemplo em musuculação com máquinas que acabam por “estragar” mais o corpo quando usadas do que ajudá-lo. Hoje em dia já é mais aceite que o trabalho com pesos livres é melhor (se for bem feito), justamente porque respeita a realidade do corpo, não obrigando a eixos ou movimentos pré-definidos.

-como é que o fortalecimento do corpo é conseguido a pensar no movimento do corpo através das pregas e não da contração muscular?

Consegues agora perceber, ou começar a perceber como responder a esta pergunta tua? As pregas relacionam-se mais com a visão da totalidade do corpo do que os músculos. Mas as pregas não são responsáveis pelo movimento em si, servem de pontos ou linhas de controlo do movimento, desacelerando e permitindo modular ou controlar a fluidez do mesmo. Antes de fortaleceres o corpo é preciso criares a capacidade de receber cargas externas, isto é, qualquer carga externa no corpo, ou qualquer força que resulta de movimento do corpo, tem implicações internas, nomeadamente numa quantidade de vibrações e oscilações que resultam dai. Imagina que todos os ritmos que acontecem no corpo ao mesmo tempo, o batimento cardíaco, os movimentos internos dos órgãos, a circulação, etc, eram sentidos pela pessoa… seria uma loucura de informação. Tu não sentes todo o movimento interno que acontece a todos os instantes em ti, enquanto estás viva, então, alguma coisa, algum mecanismo, deve estar a funcionar que amortize estas vibrações todas, e são mesmo muitas, milhares de milhares ao mesmo tempo e com ritmos diferentes… É uma orquestra enorme e seria um ruído impossível de gerir se pudesse ser ouvida. Tenho que vos explicar melhor o que entendemos por pregas e como vemos o seu funcionamento porque estes conceitos “novos” têm sido desenvolvidos a partir do conhecimento da biotensegridade e não podem ser entendidos à luz da “biomecânica”

 

-se realmente há "outra coisa" qualquer que faz mover o corpo, o que explica a evidência da ligação entre actina e miosina durante o movimento e todos os ciclos bioquímicos da contratação muscular?

Tens que ler Gerald Pollock e o que escreve sobre o modelo de contração muscular para perceber que também aqui estamos “enganados” pela ciência que nos vendem na universidade com sendo a realidade. O modelo da actina e miosina deslizando uma na outra para promover a suposta contração muscular é isso mesmo, só um modelo, uma teoria, que nunca foi provada in vivo. Este modelo foi o adoptado pela comunidade científica como o modelo certo mas há uma série de incongruências que não são explicáveis pelo modelo e, por isso, não serve… Existem outros, nomeadamente o do Gerald Pollock, que devem ser considerados. O Gerald Pollock é mais conhecido pelo estudo da 4ª fase da àgua ou água da zona de esclusão ou EZ water. O livro dele está traduzido para português, pelo Instituto Superior Técnico de Lisboa e vale muito a pena ler.

 

-como é que a lei da biotensegridade se aplica num treino de hipertrofia e/ou em fisiculturistas? 

No treino de hipertrofia, ou no treino de fisioculturismo, aplicam-se todas as considerações que conseguimos perceber através da lente da biotensegridade. Nós somos biotensegreis (esta palavra não existe no dicionário porque todo este estudo é mesmo muito recente, tem apenas alguma dezenas de anos, e por isso o vocabulário para o descrever tmabém que ser criado, ainda. Se somos seres biotensegreis nunca o deixamos de ser, quer façamos fisioterapia, quer façamos fisioculturismo. A biotensegridade explica a natureza da estrutura da matéria viva. Não se pode, por exemplo, falar em exercícios de biotensegridade… como não se pode falar de exercício de biomecânica, percebes? Pode ler os todos os exercícios à luz da biomecância ou à luz da biotensegridade…



Eu sei que tudo isto é muito complexo e não está ainda sistematizado como conhecimento. Para mim isto é uma vantagem porque eu gosto de poder descobrir e seguir novas linhas de pensamento, mas percebo que para o utilizador de informação que só quer saber como usar a informação, quer algum tipo de receita (o que é válido), esta seja uma fase muito confusa em que não se sabe quem em que acreditar e o que usar como verdade…



Acredito que te causei mais confusão ainda, desculpa se foi o caso, mas esta é a fase em que está este tipo de conhecimento e novos conhecimentos sobre a realidade sempre surgiram de dúvidas e questionamentos. Quem não se questiona, não segue em frente, fica no ponto de partida…



Aconselho que vejam este video sobre algumas dúvidas básicas de biotensegridade, talvez ajude mais um pouco.



Uma imagem com texto, design, carta, escrita à mão

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What is biotensegrity?

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Uma imagem com texto, captura de ecrã

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7 Things even "experts" get wrong about biotensegrity

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O mecanicismo da biologia

Um modelo criado para máquinas e estruturas industriais foi aplicado ao corpo humano. Esse modelo foi extremamente útil em engenharia, mas ...