Um modelo criado para máquinas e estruturas industriais foi aplicado ao corpo humano. Esse modelo foi extremamente útil em engenharia, mas é ontologicamente pobre para descrever sistemas vivos.
Como isto aconteceu.
O nascimento do paradigma mecânico do corpo (século XVII–XIX)
René Descartes
Descartes introduziu a metáfora que dominou a ciência ocidental:
“O corpo é uma máquina”
Descarte teve que separar as “coisas do corpo” das “coisas do espírito”, deixando estas para a igreja, e assim pode continuar a estudar o corpo humano, morto, decompondo-o naquilo que conseguia individualizar como órgãos, etc. A separação das “partes”, a sua individualização, foi feita de forma arbitrária. Separaram aquilo que conseguiam ver a olho nu, tudo o resto que aparecia “colado” às partes mais visíveis (músculos, ossos, etc.) era descartado como “lixo”, como não importante.
Na época isto foi revolucionário porque permitiu:
- estudar o corpo sem recorrer a explicações espirituais
- desenvolver anatomia moderna
- desenvolver cirurgia
Mas trouxe também um pressuposto silencioso:
corpo = mecanismo composto por peças
E se existem peças:
- há peças fracas
- Há peças que se estragam
- há peças que se desgastam
- há peças que precisam de reforço
Estes pressupostos silenciosos são ainda mais graves porque representam a forma como lidamos com o corpo, de facto. Achamos que o corpo está estragado quando não funciona dentro dos parâmetros considerados normais, porque em máquinas iguais as peças têm que ser iguais e têm que funcionar de forma também igual. Mas no corpo encontramos funcionamentos e formas parecidas, mas nunca iguais. Achamos que o corpo se desgasta, como acontece, naturalmente, nas peças de uma máquina, e parece mesmo que há um desgaste de “partes” ou “peças” no corpo. No corpo não há desgastes, há transformações. adaptações, reconfigurações, onde determinados tecidos parecem desaparecer e ser substituídos por outros, parece que foram consumidos. Quando algum local do nosso corpo dá sinal de que algo está diferente do habitual, através de sinais de dor, por exemplo, achamos que estes lugares estão mais fracos e que precisam de reforço, reforço muscular, normalmente. Talvez o que entendemos como fraco possa ser devido a uma acumulação localizada de tensão, excesso de esforço local.
A influência da engenharia do século XIX
No século XIX surge a engenharia estrutural moderna.
Dois conceitos fundamentais surgem aqui:
1. fadiga dos materiais
materiais quebram após ciclos de carga.
2. fatores de segurança
estruturas precisam de reforço para não falhar.
Exemplo:
- ponte
- locomotiva
- navio
Se a carga ultrapassar o limite → falha estrutural.
Este modelo está completamente certo quando aplicado às máquinas, aliás este conhecimento resulta da observação do funcionamento das máquinas.
Quando este modelo entra na medicina
No final do século XIX e início do século XX, anatomistas e ortopedistas começam a usar metáforas de engenharia para descrever o corpo:
- alavancas
- pilares
- articulações como dobradiças
- músculos como cabos
A coluna vertebral passa a ser descrita como:
uma pilha de blocos (vértebras)
separados por amortecedores (discos)
A atribuição de funções específicas a cada uma das “estruturas” ou “peças” (ex, as articulações servem para dobrar) é feita por meio de observação do corpo como uma máquina, é feita olhando somente as “partes” do corpo que queremos catalogar. Se olharmos o corpo como o todo que ele é, a atribuição de funções a determinadas “peças” talvez seja diferente ou deixe de fazer sentido. O funcionamento do corpo pressupõe a interação conjunta e simultânea de todas as “peças”, logo a sua suposta função é colaborar com o que o corpo, como um todo, faz.
Pressupostos silenciosos:
- compressão = perigosa
- A compressão é distribuída pelos vários elementos de tensão, não é acumulada. A compressão no corpo é descontínua (modelo da biotensegridade), logo não se transmite de cima a baixo, por exemplo.
- carga repetida = desgaste
- Com carga repetida há adaptação, há reconfiguração
- amplitude máxima = risco
- Os materiais, mesmo os vivos, têm um limite físico ao stress (força por unidade de superfície) mas também têm uma muito maior capacidade de adaptação e esta não é linear, quer dizer, o aumento do stress não é diretamente proporcional à deformação causada, como acontece nos materiais inertes (na maioria destes, pelo menos)
Surge então a narrativa moderna:
“a coluna é frágil”; “a coluna precisa de reforço muscular para se sustentar”; “os discos intervertebrais são desgastados com a idade e o sobre uso”…
O problema: sistemas vivos não são materiais passivos
Materiais de engenharia:
- aço
- cimento
- madeira
são estruturas passivas.
Eles não:
- regeneram
- reorganizam
- adaptam-se estruturalmente
Já os tecidos vivos fazem exatamente isso.
Na biologia surgiu justamente a ideia de entropia negativa, ou anti-entropia. Toda a matéria inerte tende para um nível de energia mínima na sua estrutura que representa a sua “degradação”. A matéria viva tem a capacidade de manter a sua estrutura, de manter a vida, de se auto-regenerar, desde que haja a adição de energia do exterior (nomeadamente de alimento), logo tem a capacidade de contrariar a lei da entropia - pelo menos enquanto é viva.
A descoberta da adaptação biológica
Julius Wolff
Wolff mostrou algo radical:
o osso muda a sua estrutura em resposta à carga.
Isso significa:
- carga não destrói necessariamente
- carga organiza estrutura
Mecanismo de mecanotransdução.
| materiais industriais | tecidos vivos |
|---|---|
| passivos | adaptativos |
| degradam com uso | reorganizam com uso |
| falha progressiva | remodelação |
| sem regeneração | regeneração |
Um exemplo simples
Um carro:
uso → desgaste → falha
Um corpo:
uso→ adaptação → capacidade variável
Dependendo do uso que é feito a capacidade do corpo vai ser diferente, vai variar, mas o corpo é sempre capaz, não se estraga!
Claro que existe dano biológico.
Mas a lógica fundamental é diferente.
A consequência cultural
Durante o século XX espalhou-se a ideia de que o corpo é:
- frágil
- vulnerável
- propenso a desgaste
Isto influenciou:
- ortopedia
- fisioterapia
- fitness
- ergonomia
Frases típicas:
- “poupe a coluna”
- “não desgaste as articulações”
- “não vá ao limite”
os sistemas vivos evoluíram para lidar com variação e carga.
A resistência não está nas partes, está na organização
O exemplo do cabelo
Um fio de cabelo é muito frágil.
Um conjunto organizado de cabelos é muito resistente.
O mesmo acontece em:
- colagénio
- tecido fascial
- músculo
- osso trabecular
A matéria viva não é frágil, o que é frágil é a matéria quando a retiramos da sua organização.
A fragilidade aparece quando a vida é reduzida às suas partes.