1-Imaginando uma escala de -10 a 10, em que o 0 corresponde ao estado de tensão ideal do corpo (inatingível na prática, mas que iremos procurar o estado mais proximo dele, em que lhe vou chamar de tensão basal).
Sim, na perspetiva da biotensegridade - e isto pode ser constatado de forma empírica, experienciada - o corpo tem sempre um nível de tónus de base, ou estado de tensão de base. Há sempre tensão latente no corpo, mesmo no estado de profundo relaxamento. Há uma "experiência" gira, que só os cirurgiões realizam, em que quando se corta um tecido mole, pele por exemplo, os bordos do corte afastam-se sempre, querendo isto dizer que estes tecidos estão sob tensão. Quando o mesmo é feito nos ossos, quando um osso se parte, os bordos aproximam-se, encavalitam-se, querendo isto dizer que estes tecidos estão sob compressão. Enquanto para reparar um tecido mole, pele, tendão músculo, etc., é preciso puxar os bordos um para ao outro, numa fratura óssea é preciso fazer bastante força para separar os bordos que estão encavalitados e muitas vezes colocar espaçadores que mantenham os bordos numa boa relação entre si para poderem solidificar novamente.
Imaginemos que num local das lordoses temos um 10, um local de acumulação de tensão, e portanto um local hipomovel que pode traduz se ou não em dor.
Com base na lei da biomecânica, em que havendo um local hipomovel, existe uma compensação de hipermobilidade noutro local, então aqui nesta nova visão da biotensegridade o mesmo acontece? Ou seja, existindo um local de acumulação de tensão (acima do 0 na escala mencionada), haverá noutro local um local de "hipotensão" (abaixo de 0 na escala)??
Sim, está correto, na perspetiva da biotensegridade, se existe um local de acumulação de tensão, portanto de compressão, vai haver algum outro local em qua a tensão não está bem distribuída, e provavelmente este lugar estará hipermóvel.
Se sim, poderemos dizer que o nosso foco em devolver a mobilidade daquele local através da distribuição da tensão, iria indiretamente tornar mais estável o outro local hipermovel, uma vez que toda a cadeia miofascial extraarticular desse mesmo local ganharia mais tensão aproximando se do estado de tensão basal?
Onde quero tentar chegar é a pessoas que sofrem de luxações crônicas ou até mesmo pessoas com hiperlaxidez dos tecidos. Qual a tua visão nesse tipo de pessoas? Por norma todas as pessoas que tenho na clinica após luxações apresentam uma grande instabilidade e dor, mas aí não me faz sentido pensar em acumulação de tensão.
OK, acho que percebo o teu raciocínio. Quando há uma luxação do ombro, diz-se que o mesmo fica muito instável, com excesso de mobilidade e que por isso pode facilmente "saltar" da articulação da omoplata. Primeiro, falar da articulação do ombro é já em si uma grande abstração de interpretação da realidade. O complexo a que chamamos ombro tem uma série enorme de possibilidades de movimento (que não têm articulação no sentido tradicional onde dois ossos se movem um em relação ao outro), tem uma série de tecidos mio-fasciais (músculos, tendões, ligamentos, etc...) que apresentam linhas de tensão (ou de tração) muito diversas e todas diferentes. No meio desta complexidade que descrevi acho que é fácil admitir que numa luxação algumas destas linhas de tensão podem estar laxas e outras muito comprimidas, sendo o resultado geral de falta de "estabilidade" ou de falta de fixação do braço no tronco. Tem que haver alguma acumulação de tensão em algum lugar, mesmo que não seja em algum local afastado do ombro, uma vez que a tensão no corpo (segundo a biotensegridade) é contínua, se mexermos em algum lugar do corpo podemos ter todo o corpo a responder a esse estímulo.
Na abordagem da fisioterapia informada pela biotensegridade, são criados campos de tensão uniformes nas zonas onde exista instabilidade e "espera-se" que esta tensão uniforme induzida estimule a regeneração dos tecidos. Mesmo as alterações fisiológicas e bioquímicas podem ser induzidas pelo estímulo mecânico - mecanotransdução, ou por estímulos elétricos - eletroestimulação. Estes campos de tensão uniformes são induzidos usando materiais com características viscoelásticas porque têm o mesmo tipo de comportamento da matéria mole de que o corpo é feito. Esta abordagem vem do estudo da peridinâmica (a ciência que estuda o comportamento da transmissão de forças em superfícies compostas por materiais com comportamentos diferentes na transmissão de forças, na terra, como acontece num tremor de terra). Podemos falar mais deste tipo de procedimentos para entenderes do que estou a falar e eu sei que isto é MUITO fora... muito complexo...
Percebo que na prática do pilates (pelo menos com o pouco conhecimento dos exercícios que tenho) não interfira em nada na sequência, talvez um pouco de atenção nos exercícios que colocam o local na amplitude máxima (por exemplo numa pessoa com luxação crônica de um ombro), mas na teoria não consigo perceber o meu papel quanto na distribuição da tensão, porque para mim o local está exatamente num estado contrário.
O uso das molas de pilates reproduz o comportamento tensional que é descrito como organizador da estrutura do corpo pela biotensegridade. Ao aplicaresa exercícios de molas, lentos, fora das amplitudes e intensidades que levam à dor, estás a estimular a criação de campos de tensão uniformes que ... curam a estrutura.
2- no seguimento da pergunta da Inês, em que questionou se te faria sentido um jogador de futebol fazer trabalho de fortalecimento num ginásio e tu respondeste que não, mas a treinar resistência/força/ e gesto técnico no contexto da atividade desportiva dele.
A minha questão é, se estivermos a falar de um pós operatório em que o objetivo ainda é ganho de massa muscular para a assimetria de força entre os membros, a tua resposta seria a mesma?
Sim, sobretudo nestes casos!
É que para mim faz todo o sentido esse trabalho no ginásio para um pós operatório, mas agora à luz da biotensegridade sei que o que estou a fazer também é criar acumulação de tensão no segmento que estou a trabalhar. Então, estou basicamente aqui num conflito mental de que me faz sentido esse treino de reforço, mas ao mesmo tempo não vai de encontro ao trabalho do corpo como um todo nem da distribuição da tensão que também me faz todo o sentido de trabalhar assim.
Então, do que falámos no fim de semana sobre a necessidade de criar primeiro as condições de estabilização do corpo entendidas como o sistema de amortecimento de forças no corpo, acho que podes entender o meu "sim, sobretudo nestes casos". Num pós-operatório vai haver, com certeza, uma destruição de todo o tecido fascial que é o que dá suporte ao amortecimento interno do corpo. Qualquer desenvolvimento de força que faças, para ser eficaz, terá que ter, primeiro, uma base de "sistema de amortecimento" instalado. E sabes, agora que penso nos protocolos de recuperação da fisioterapia de pós-operatórios, percebo que já se faz o que te estou a dizer. Nunca começas pela aplicação de cargas, num protocolo, primeiro aplicas os meios de eletroestimulação e de movimento passivo e suave e sustentado, mantido. Ao fazeres isto estás justamente a estimular a regeneração do tecido fascial, do colágeno, antes de começares a desenvolver a força ou o tecido muscular. Isto é muito importante de constatar: Algumas das práticas da fisioterapia, ou das fisioterapias porque são muitas as linhas que por aí andam tal como no pilates, são muito eficazes a tratar do corpo e a ajudar na regeneração dos tecidos, das inflamações, etc. Portanto, as práticas usadas são corretas uma vez que têm resultados muito positivos e consistentes. A teoria que sustenta essas práticas é que não consegue explicar aquilo que se faz e são arranjadas explicações (que não são questionadas) para o que se faz. Portanto, não é preciso conhecer a teoria por trás das práticas, uma vez que as práticas que usamos e que perduram no tempo são aquelas que são eficazes, que resultam e curam. Mas, se quiseres aprofundar, desenvolver e comunicar as práticas usadas no corpo, em fisioterapia ou fora dela, é amis fácil se tiveres um corpo teórico e científico que, de facto, as sustente. Eu, nos primeiros anos de ensino de Pilates a instrutores tive sempre muita dificuldade em explicar o porquê daquilo que fazemos em Pilates porque a teoria e a ciência que tinha à minha disposição não se encaixava completamente, ou de todo.
Espero ter criado ainda mais dúvidas e alguns esclarecimentos. Se quiseres posso te pôr em contacto com um grupo de fisioterapia que estuda e aplica a visão da biotensegridade. Eles têm um curso sobre biotensegridade para fisioterapia, todo online e que é barato, mesmo barato, mas é em inglês.