Estas foram algumas das perguntas feitas sobre biotensegridade e produção de força. Acho que são bastante pertinentes e podem estar na cabeça de todos nós quando somos expostos a este novo paradigma. Talvez ajude alguns nas suas reflexões e pode fazer com que outro comecem a refletir.
Não editei as respostas, existem erros de ortografia e de construção de frases, etc. Desculpem-me por isso.
-Penso na distribuição da tensão quase como o
retirar/diminuir da retração miofascial, que nos permite ganho de flexibilidade
e consequentemente de mobilidade. Mas como é que isso nos permite ganhos a
nível do fortalecimento?
No modelo da biotensegridade, a estrutura do corpo é vista
como sendo o resultado de um campo de tensão contínua e de “ilhas” de
compressão descontínuas. No modelo tradicional, que ainda está em uso em muitos
meios académicos, a estrutura do corpo resulta de um campo de compressão
contínua e de “ilhas” de tensão descontínuas. Isto quer dizer que no segundo
modelo referido - a que vou chamar biomecânica - a forma do corpo só se mantém
se houver um alinhamento das supostas partes com a linha de ação da gravidade.
Quando tal não acontece, segundo este modelo, a estrutura perde a sua
integridade e aparecem as tais “ilhas” de tensão. No primeiro modelo referido -
que chamo biotensegridade - a integridade do corpo não depende do alinhamento
do mesmo com a linha de ação da gravidade e não existem partes no corpo, por
isso não podes dividir o corpo em partes para analisar o seu funcionamento,
tens sempre que considerar a sua totalidade. Segundo a biotensegridade, existe
uma tensão, um tónus, de base no corpo que nunca se perde enquanto o corpo
vive. A distribuição da tensão de forma equilibrada, ou o mais equilibrada
possível, é o objetivo do trabalho com o corpo. O corpo não gosta de acumulação
de tensão, gosta de distribuições, mas gosta de tensão. Já aqui é preciso rever
este conceito, de tensão, que na nossa linguagem habitual tem uma conotação
negativa e, na biotensegridade, passa a ser algo positivo, porque organiza e
estrutura.
Além deste aspeto da definição de tensão, a biotensegridade
considera a totalidade do corpo e não as suas supostas “partes”. Na visão
tradicional do corpo - biomecânica - são os músculos (uma parte) responsáveis
pela produção de movimento ou de força. A biotensegridade leva em linha de
conta o todo, logo não são os músculos que produzem movimento, é o todo que
produz movimento. Eu sei que isto dito assim não faz qualquer sentido
para nós (todos nós) que aprendemos o contrário, que são só músculos, que estão
ligados por tendões aos ossos, que produzem movimento. Mas se pensares bem, e
se tiveres oportunidade de assistir uma dissecação de cadáver, vai ver que há
uma continuidade no corpo todo e que só consegues separar os músculos dos resto
dos tecidos todos, da gordura, dos vasos, dos órgãos circundantes, das
aponevroses, dos restante tecido facial que tudo envolve e tudo permeia, se
cortares com um bisturi, se fizeres corte e costura no corpo. Por exemplo, os
trilhos anatómicos definidos pelo Thom Mayers apenas existem porque ele os
consegue cortar daquela forma, de outra forma são completamente indistintos
quando abres o corpo. Assim, em biotensegridade, quando vemos um movimento
acontecer, por exemplo, de flexão do cotovelo, não sabemos que o mesmo não é feito
pela contração do bicípite mas sim pela RECONFIGURAÇÂO de todo o corpo, onde a
contração do bicípite claro que acontece mas não podes considerar que seja o
principal elemento responsável por aquela ação. Como podes dizer que a pele, a
gordura, a fascia, os órgãos, etc, etc, não têm um papel pelo menos tão
importante como o bicípite naquela ação? Podes dizer-me, com razão, que os
estudos científicos e todos os manuais académico comprovam que são os músculos
os responsáveis pela produção do movimento. Todos esses estudos desconsideram
toda a informação que vem de outros tecidos e estruturas envolventes porque,
como podes imaginar, é muito dífícil medir todo o ruído que vem de tanto lado
ao mesmo tempo mesmo numa simples ação com uma flexão de cotovelo. A ciência
“resolve” o problema partindo as coisas aos bocadinhos e olhando apenas
para um aspeto da realidade de cada vez. A vantagem é que consegues ver o
bocadinho para onde olhas, a desvantagem (enorme no meu entender) é que perdes
a realidade tal como ela é. O Descartes começou, ou pelo menos deixou escrito,
que a mente deve ser separada do corpo… hoje em dia achamos quase piada a esta
afirmação, claro, mas continuamos. O mesmo se passa na visão da estrutura do
corpo. A biomecância baseia-se no estudo da mecânica, dos materiais inertes,
que não têm um comportamento nada semelhante ao da matéria viva, embora às
vezes pareça o contrário. Por exemplo, as máquina movem as sua partes em torno
de eixos bem definidos, se não o fizerem começam a trabalhar mal porque estão
desalinhadas, concordas? Usandoo modelo das máquinas fazemos o mesmo raciocínio
para o corpo, dizemos que existem eixos de movimento no corpo… e isso não
é verdade, de todo!!! Isto deves saber pelo trabalho feito, por exemplo em
musuculação com máquinas que acabam por “estragar” mais o corpo quando usadas
do que ajudá-lo. Hoje em dia já é mais aceite que o trabalho com pesos livres é
melhor (se for bem feito), justamente porque respeita a realidade do corpo, não
obrigando a eixos ou movimentos pré-definidos.
-como é que o fortalecimento do corpo é conseguido a
pensar no movimento do corpo através das pregas e não da contração muscular?
Consegues agora perceber, ou começar a perceber como
responder a esta pergunta tua? As pregas relacionam-se mais com a visão da
totalidade do corpo do que os músculos. Mas as pregas não são responsáveis pelo
movimento em si, servem de pontos ou linhas de controlo do movimento,
desacelerando e permitindo modular ou controlar a fluidez do mesmo. Antes de
fortaleceres o corpo é preciso criares a capacidade de receber cargas externas,
isto é, qualquer carga externa no corpo, ou qualquer força que resulta de movimento
do corpo, tem implicações internas, nomeadamente numa quantidade de vibrações e
oscilações que resultam dai. Imagina que todos os ritmos que acontecem no corpo
ao mesmo tempo, o batimento cardíaco, os movimentos internos dos órgãos, a
circulação, etc, eram sentidos pela pessoa… seria uma loucura de informação. Tu
não sentes todo o movimento interno que acontece a todos os instantes em ti,
enquanto estás viva, então, alguma coisa, algum mecanismo, deve estar a
funcionar que amortize estas vibrações todas, e são mesmo muitas, milhares de
milhares ao mesmo tempo e com ritmos diferentes… É uma orquestra enorme e seria
um ruído impossível de gerir se pudesse ser ouvida. Tenho que vos explicar
melhor o que entendemos por pregas e como vemos o seu funcionamento porque
estes conceitos “novos” têm sido desenvolvidos a partir do conhecimento da
biotensegridade e não podem ser entendidos à luz da “biomecânica”
-se realmente há "outra coisa" qualquer que faz
mover o corpo, o que explica a evidência da ligação entre actina e miosina
durante o movimento e todos os ciclos bioquímicos da contratação muscular?
Tens que ler Gerald Pollock e o que escreve sobre o modelo
de contração muscular para perceber que também aqui estamos “enganados” pela
ciência que nos vendem na universidade com sendo a realidade. O modelo da
actina e miosina deslizando uma na outra para promover a suposta contração
muscular é isso mesmo, só um modelo, uma teoria, que nunca foi provada in vivo.
Este modelo foi o adoptado pela comunidade científica como o modelo certo mas
há uma série de incongruências que não são explicáveis pelo modelo e, por isso,
não serve… Existem outros, nomeadamente o do Gerald Pollock, que devem ser
considerados. O Gerald Pollock é mais conhecido pelo estudo da 4ª fase da àgua
ou água da zona de esclusão ou EZ water. O livro dele está traduzido para
português, pelo Instituto Superior Técnico de Lisboa e vale muito a pena ler.
-como é que a lei da biotensegridade se aplica num treino
de hipertrofia e/ou em fisiculturistas?
No treino de hipertrofia, ou no treino de fisioculturismo,
aplicam-se todas as considerações que conseguimos perceber através da lente da
biotensegridade. Nós somos biotensegreis (esta palavra não existe no dicionário
porque todo este estudo é mesmo muito recente, tem apenas alguma dezenas de
anos, e por isso o vocabulário para o descrever tmabém que ser criado, ainda.
Se somos seres biotensegreis nunca o deixamos de ser, quer façamos
fisioterapia, quer façamos fisioculturismo. A biotensegridade explica a natureza
da estrutura da matéria viva. Não se pode, por exemplo, falar em exercícios de
biotensegridade… como não se pode falar de exercício de biomecânica, percebes?
Pode ler os todos os exercícios à luz da biomecância ou à luz da
biotensegridade…
Eu sei que tudo isto é muito complexo e não está ainda
sistematizado como conhecimento. Para mim isto é uma vantagem porque eu gosto
de poder descobrir e seguir novas linhas de pensamento, mas percebo que para o
utilizador de informação que só quer saber como usar a informação, quer algum
tipo de receita (o que é válido), esta seja uma fase muito confusa em que não
se sabe quem em que acreditar e o que usar como verdade…
Acredito que te causei mais confusão ainda, desculpa se foi
o caso, mas esta é a fase em que está este tipo de conhecimento e novos
conhecimentos sobre a realidade sempre surgiram de dúvidas e questionamentos.
Quem não se questiona, não segue em frente, fica no ponto de partida…
Aconselho que vejam este video sobre algumas dúvidas básicas
de biotensegridade, talvez ajude mais um pouco.
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