Da leitura do artigo que iremos usar como base de discussão vou retirar algumas "leituras" que vou fazendo e partilho-as aqui. Pode ser que desperte alguma curiosidade em alguém.
A nossa visão e concepção da estrutura, de qualquer estrutura física, está condicionada pelo conhecimento das estruturas físicas inanimadas que nos rodeiam e que foram estudadas e explicadas pelos princípios biomecânicos "descobertos" há séculos. Quando olhamos para qualquer estrutura edificada pelo homem sabemos se está direita ou torta, se se vai manter ou cair dependendo do seu alinhamento com a gravidade, com a sua linearidade. Também sabemos, apenas por olhar, que uma estrutura edificada pelo homem que tenha uma base de sustentação muito pequena e leve, terá menos probabilidade de se sustentar do que uma que tenha a base mais larga que o topo e essa base seja mais robusta. Quando olhamos para a matéria viva - um corpo animal, uma árvore - aplicamos os mesmos parâmetros na nossa avaliação da estabilidade e resistência. Se olharmos atentamente, vamos ver que a nossa ideia pré-concebida não pode estar certa e que precisa de um conhecimento (base científica) diferente do que usamos nos materiais inertes.
O que sugerem estas imagens de estruturas feitas pelo homem? Necessidade mínimas de energia para se manterem?
Nós, e os seres vivos no geral, não dependemos do alinhamento com a gravidade ou da verticalidade para mantermos a nossa estrutura, a nossa forma de base. Podemos sair da nossa base de apoio e não nos despedaçamos. Nada no nosso corpo é linear ou retilíneo... Podemos mudar a relação entre as nossas "partes" que não nos desmoronamos.
O que é o melhor alinhamento para cada um? Haverá um único?
Se estivermos adaptados a um determinado alinhamento estamos adaptados a uma determinada função e utilização do nosso corpo. Devemos mudar? Quando olhamos para um corpo, vemos mesmo o corpo ou que nos dá mais jeito que o corpo fosse, feito de ""alinhamentos" e linearidades que são mais fáceis de computar com os modelos de estrutura que usamos na ciência?



















Depois de ler este estímulo que nos escreves, food for thought para este terceiro encontro, pensei nos conceitos de continuidade/descontinuidade, sistema fechado/sistema aberto…
ResponderEliminarQuando sentimos movimento e quando conseguimos estar presentes na observação das formas vivas e do seu movimento, o conceito de continuidade surge, na medida em que, apesar de os seres vivos serem feitos de áreas com diferentes texturas, densidades, profundidades, precisamente por estar vivo, não conseguimos segmentar. Nem a estrutura nem o movimento. Acredito, no entanto, que quanto menos eficiente o movimento de um ser vivo se torna, mais segmentada a estrutura se pode tornar. A sua estrutura física. Acentuando-se a diferença entre os tecidos. Trazendo talvez algum “endurecimento” à “soft matter “.
Pensei também em termos de sistema. Talvez “sistema fechado” não se adeque, na medida em que os seres vivos fazem trocas com o exterior para se manterem vivos. No entanto, no que à estrutura diz respeito, não somos dependentes da gravidade para mantermos a nossa integridade estrutural. Enquanto que as estruturas não vivas só existem por relação a essas ”exterioridades”.
Com efeito, talvez possamos afirmar que a eficiência de uma estrutura física mede-se sempre por relação às forças exteriores, que permitem a sua construção no máximo de eficiência. Chamei-lhe “sistema aberto” por essa dependência. Quanto aos seres vivos, a eficiência, quer do movimento, quer da forma, é sempre por relação à sua “interioridade”. A eficiência da estrutura viva dependerá, por assim dizer, da constante “organização/reorganização” estimulada pelas experiências/ estímulos a que sujeitamos a estrutura viva. Adaptação/readaptação em processo constante…
Este comentário foi feito pela Teresa Lúcia.
ResponderEliminar"Acredito, no entanto, que quanto menos eficiente o movimento de um ser vivo se torna, mais segmentada a estrutura se pode tornar."
Sim, a continuidade da matéria é uma evidência que tem sido mencionada em várias áreas de estudo. Infelizmente, no ocidente, o corpo humano foi igualdado a uma máquina e numa máquina é possível separar as peças uma a uma e é possível identificar os limites de cada uma. Podemos ver, descrever e tocar os limites de cada peça, de cada parte. Podemos delimitar um tipo de material e separá-lo do resto dos materiais que compõem uma máquina. A própria construção da máquina é feita pela junção ordenada das peças e dos materiais que a compõem. Num ser vivo este tipo de abordagem não é possível. Num ser vivo quando há adição de partes (por exemplo de um determinado alimento) já não é possível voltar a separá-las, o resultado desta "adição" não é um somatório, mas uma transformação. Quando adicionamos algo a uma máquina obtemos a máquina com algo adicionado. Talvez a máquina passe a ter alguma função diferente, mas não deixa de ser a máquina, e podemos sempre voltar a tirar a peça e voltar à máquina original. Num ser vivo, quando adicionamos um elemento, um alimento por exemplo, vamos obter um ser vivo diferente, que não pode ser revertido ao estado original. Os seres vivos são processos que nunca param de progredir (evoluir). Portanto, a continuidade, nos seres vivos, no corpo humano é permanente, desde a concepção até à morte, quando o sistema (ser vivo) deixa de ser contínuo e vai separar-se até aos elementos básicos da matéria. "Vimos do pó e voltamos ao pó". Assim, não vejo que o corpo menos eficiente se segmente porque é sempre um sistema contínuo enquanto estiver vivo. Talvez perceba esta "segmentação" de que falas como uma expressão de um funcionamento diferente do corpo, quando este se transforma e se adapta a novas condições e parece que não funciona tão bem como já havia funcionado. Mas a inteligência da Natureza faz com que sempre funcionemos na forma mais eficiente possível dadas as condições. A matéria (toda a matéria e nós somos matéria) sempre tendem para o estado mínimo de energia possível, sempre!
"A sua estrutura física. Acentuando-se a diferença entre os tecidos. Trazendo talvez algum “endurecimento” à “soft matter “.
A diferença entre tecidos a que te referes, e que é percebida pelo toque ou pelas restrições ou facilidades de movimento, não corresponde a uma descontinuidade na matéria mas a uma mudança de fase, uma adaptação às condições para que a energia mínima seja garantida nas "novas" condições. Estas mudanças de fase são reversíveis com a introdução apropriada de energia no sistema, mas o sistema, o corpo, nunca fica descontinuado. Eu sei que é uma questão de linguagem e que é possível sentir que o corpo fica "descontinuado" em algumas situações de funcionamento não "normal" ou patológico, mas, de facto, nunca há descontinuação ou separação física dentro do sistema vivo.