Durante a conversa com a Susan, ela contou que acordou a meio da noite e realizou que o centro de um buraco negro tem que ter a forma de um tetraedro porque é a estrutura física que tem o mínimo de energia e o mínimo de volume possível em qualquer estrutura física. Penso que esta é uma boa oportunidade para falar um pouco sobre esta coisa das estruturas geométricas na composição das estruturas físicas, que vem mencionado no artigo do Steven Levin que estamos a ler. Confesso que, no início do meu estudo em biotensegridade, eu não percebi porque estavam sempre a falar dos poliedros regulares lineares e volumétricos com nomes tão estranhos como tetraedro e ecosaedro e porque foi o ecosaedro o modelo escolhido para representar a estrutura mais básica da tensegridade. Vou tentar resumir um pouco do que eu entendi disto tudo, e ainda estou a estudar por isso ajudem se virem alguma coisa errada ouse não entenderem alguma coisa do que digo.
Primeira constatação é que quando falamos de qualquer coisa que exista no mundo da matéria - como um grão de areia ou como um corpo humano - estamos a falar de matéria física e TODA a matéria física é estudada pela Física. Os princípios gerais da Física, chamados princípios básicos, aplicam-se de forma exatamente igual quer se trate do grão de areia, quer se trate do corpo humano. Esta constatação foi para mim um choque! Então estou a comparar-me a um grão de areia? Sim, os átomos que constituem um encontram-se no outro. Logo, se estudar o comportamentos dos átomos posso saber alguma coisa sobre a base da matéria, sobre a base do corpo humano. Como os detalhes do corpo humano são tão complexos e tantos e tão intrincados uns nos outros, parece-me mais fácil se estudarmos o comportamento dos elementos de base - os átomos - para podermos antever e compreender o que se passa no complexo todo. Daí que se esteja a optar por este novo paradigma, da biotensegridade, que está justamente assente no conhecimento dos tais princípios básicos da física. Para mim isto facilita-me a vida na tentativa de compreensão dos estudos complicadíssimos que se fazem para estudar os detalhes do funcionamento do corpo. Isto porque eu sei -agora - que todos estes detalhes, por mais pequeninos e complexos que possam parecer, estão sempre sujeitos e subordinados aos princípios básicos da física. Estes princípios básicos foram nomeados e exploramos no artigo anterior que usámos, do Graham Scarr, e são:
- Geometria geodésica - onde as força que atuam num corpo sempre unem dois pontos em linha reta mas dão origem a curvaturas mais ou menos complexas em escalas de dimensão maiores (A tal observação no ecosaedro que se deforma em torções quando lhe é aplicada uma força a direito num ponto)
- O empacotamento denso (close-packing) de múltiplas partes no menor espaço possível, onde cada parte é estruturalmente dependente de todas as outras que a rodeiam
- Energia mínima, onde tudo acontece do modo mais simples e mais eficiente possível. A estrutura descansa num estado de equilíbrio e de minima energia, e apesar da dinâmica dos sistemas vivos estar constantemente em mudança e estar longe do equilíbrio enquanto estão (estamos) vivos, aplicam-se os mesmos princípios.
Na verdade, depois de ter assistido ao vídeo do 3º encontro e de ter lido a tua reflexão sobre as estruturas da matéria viva, fez-me pensar que a mente humana para entender o todo, precisa reduzir e remeter-se à ínfima parte. A mente humana não tem um nível de abstracção capaz de entender a complexidade. Para isso, para entendermos e fazermos analogias que mais tarde nos permitem ampliar o nosso entendimento sobre a realidade, necessitamos de entender a estrutura/modelo mais simplificado.
ResponderEliminarA estrutura mais simplificada da matéria viva, que ocupa o menor espaço e que gasta o mínimo de energia tem a forma de um tetraedro. Naturalmente será sempre um ponto de partida sobre o qual poderemos extrapolar para entender estruturas mais complexas. No entanto, penso que precisamos estar conscientes de que, tal como bem disseste, nós não somos só a soma das partes. Numa estrutura viva mais complexa, existem processos de transformação, física e também química, que possam estar num lugar tão subliminar que nos escapam. E esse lugar também é fascinante.
Outra questão é a eficiência. A eficiência remete-nos para a competência de realizar algo convenientemente despendendo um mínimo de esforço, tempo e outros recursos...todas as estruturas vivas encontram-se num estado de maior eficiência possível, dentro
daquela estrutura material e naquele contexto de existência. Qualquer forma viva encontra-se num processo de adaptação/readaptação constante aos estímulos a que é sujeita. Será que, a nossa actuação, enquanto profissionais do movimento e tendo como um dos objectivos, facilitar o bem-estar físico e psicológico que significará uma melhoria geral da qualidade de vida das pessoas que nos procuram, é interferir nos estímulos para como consequência haver uma readaptação e despertar uma maior competência na realização de tarefas mais complexas? Temos nós um papel tão fundamental no aumento da eficiência? Podemos dizer que uma estrutura viva é tão mais eficiente quanto mais tarefas consiga produzir com o mínimo de energia despendida?
Na verdade, eu posso existir num estado ótimo de eficiência, no que aos estímulos a que eu me sujeito diz respeito. Mas talvez se precisar de carregar um garrafão de 20l de água escada acima, não sou nada eficiente. Isto é, não tenho em mim competências para realizar esta tarefa com eficiência...
Desculpem-me se foi uma reflexão demasiado básica. Mas de facto, tenho dado por mim a pensar muito nisto da eficiência, da overdose de acção e dispêndio de energia e qual o objectivo (para nós e nosso, enquanto profissionais do corpo e do movimento).
Teresa Lúcia
Entender o todo através das partes mais ínfimas, dizes tu. Sim, isso é o que se tem feito em ciência, especialmente no ocidente. Retalhamos o corpo até ao nível da célula e dos seus constituintes, separando-os do todo, e inferimos o seu comportamento ... no todo. Estes "retalhos", estas partes em que separamos o corpo, muito pouco têm a ver com o comportamento que ocorre quando o todo está "inteiro". Uma célula observada ao microscópio, isolada do tecido de que provém, e do órgão desse tecido, e do sistema desse órgão, e do corpo onde esse sistema funciona (e do ecosistema onde o corpo se insere), não tem, com certeza, o mesmo comportamento de quando está integrada. Claro que se torna muito difícil observar o todo quando a célula ainda está integrada. Também há aquela anedota sobre alguém que perdeu algo na rua, de noite, e procura o local mais próximo que esteja iluminado para procurá-la. A ciência, pelo menos a ocidental, está cheia deste tipo de "simplificações" que, como é evidente, levam a erros tremendos.
ResponderEliminarEm vez de olharmos e estudarmos o corpo através das suas ínfimas partes podemos, como se faz na medicina oriental (e eu sei muito pouco disto), olhar para os padrões do comportamento do todo, para os sinais (detalhes) externos que refletem o comportamento do todo, como as várias pulsações, as tonalidades de várias partes do corpo, dos olhos, da língua, da pele, etc. Nós, profissionais de movimento, sabemos sobre a observação do todo e usamos este tipo de observação na nossa tomada de decisão sobre o que fazer ou como orientar a prática. Fazemo-lo o tempo todo, mas achamos que o melhor é não dizer que o fazemos porque não é "científico". Não é científico, de facto, porque a ciência ainda não desenvolveu as competências para este tipo de observação e análise, de forma sistemática. A história da ciência está cheia destas contradições e têm sido visonárias(os) que acreditam nas suas percepções e intuições, que têm feito avançar a ciência e o conhecimento. No estudo do corpo a evolução do conhecimento tem sido feita, prioritariamente através deste tipo de abordagem.
O Leonid Blyum, faz justamente uma abordagem do todo atrás do comportamento das superfícies no todo. Aqui está um exemplo da sua forma de pensar através da observação do comportamento exterior do todo (https://youtu.be/ZSJc37cJlIk?si=wpC50796KxZDh9oL). Este e outro tipo de abordagens parte da premissa de que NÃO HÁ PARTES num organismos vivo. Qualquer separação em partes é uma abstração, um simplificação que vai levar a erro de interpretação. Esta nova forma de pensar a organização e comportamento da estrutura da matéria viva, dos organismos vivos, advém da adopção do novo paradigma chamado biotensegridade.
Como tu dizes, "A mente humana não tem um nível de abstracção capaz de entender a complexidade", mas em vez de olharmos para os detalhes para simplificar, podemos olhar para as generalidades. Os processos subliminares que nos escapam, como também referes, de facto escapam-nos e não serão essas minúcias que nos interessam realmente, não trabalhamos a esse nível no corpo. Influenciamos esses níveis "infinitesimamente pequenos", com certeza, através da abordagem do nível observável e palpável.
Segunda parte do comentário:
ResponderEliminarRelativamente à eficiência. Sim, eu acredito que nós somos sempre eficientes, sempre. Quaisquer que sejam as condições nós sempre tendemos para a utilização mais eficiente dos recursos energéticos de que dispomos na situação em questão. Nós, enquanto profissionais, no meu entender, não somos os responsáveis pelo aumento da eficiência de outro organismo, podemos facilitar a utilização de energia e de recursos sugerindo a mudança das condições do contexto. No teu exemplo, do garrafão de 20 litros, tu podes não ser eficaz na realização da tarefa e falhar a meio da escada, deixando o garrafão cair, por exemplo. Mas, no momento da falha e a cada momento em enquanto consegues carregar o garrafão, o teu corpo está a usar os teus recursos, a tua nergia, da forma mais eficente possível. Nesse caso, largar o garrafão e não cumprir a tarefa representa, justamente, usar a energia e os recursos que tens da forma mais eficiente, para poderes manter a tua estrutura, o teu corpo sem ultrapassares os teus limites e te "partires toda"... Não és eficaz na tarefa porque não a consegues realizar, mas és tremendamente eficiente no uso dos teus recursos e energia quando largas o garrafão e te auto-preservas.
ResponderEliminarMuito bom conteúdo, este comentário!
Olhar para um todo orgânico. Fundamental não sectorizar e apreender, antes ou em vez, possíveis relações nas diferentes manifestações do corpo. Encontrar padrões no grupo e identificar indicadores que se possam associar a diferentes variáveis.
A cada momento o corpo usa a energia e os recursos de que dispomos optimizando-os, sempre com o objectivo primeiro de manter e/ proteger a integridade da estrutura. Surge-me aqui uma questão, que é: posso capacitar-me para uma maior eficiência nessa tarefa, ao ponto de a terminar com sucesso, certo? Estou assim a querer “superar-me” à natureza? A natureza revela que com a minha idade e todas as minhas características de existência, não realizar essa tarefa é normal? Que realizar essa tarefa exigiria um esforço e energia, os quais já não é suposto? Quais devem ser as nossas orientações e objetivos? Nossas e das pessoas que nos procuram?
Obrigada pelas reflexões🥰👌
Teresa Lúcia