segunda-feira, 16 de dezembro de 2024

Reflexões sobre o 7º encontro

Na análise do gráfico de carga / deformação que usámos nesta última conversa, verificámos que o gráfico para os tecidos orgânicos vivos nunca começa no zero, no eixo vertical. Isto quer dizer que existe uma tensão sempre presente, mesmo quando estamos em repouso, ou pré-tensão.
A Paula Romero chamou a atenção para este mesmo termo quando trabalhamos um movimento e eu acredito que esta outra pré-tensão a que ela se referiu corresponde ao final da fase 1 do gráfico, onde as fibras se alinham com a direção da carga. Com base nestas observações fiz esta reflexão que deixo abaixo e espero que suscite reflexões e comentários.

NOTA: a reflexão é isso mesmo, é escrita ao sabor da minhas reflexões e sem pretensões literárias. Tem erros de escrita com certeza... não foi editada.

Pré-tensão
No diagrama de carga/adaptação a curva não inicia no zero porque há sempre uma tensão no sistema orgânico vivo.
Quando iniciamos a aplicação da carga, a primeira fase "toe", de muito baixa intensidade de carga, de grande não linearidade, corresponde ao direcionamento das fibras de colágeno que se alinham na direção da linha da força aplicada. Só depois de haver este alinhamento é que podemos pensar em aplicar algum tipo tensão uniforme ao sistema ou à região do sistema que estamos a considerar.
Portanto, podemos considerar dois momentos em que falamos de pré-tensão ou talvez haja alguma designação específica para ao ponto de inflexão da curva em que entramos na fase 2, em que a curva mostra um comportamento quasi-linear.
Nas intervenções "hands-on" percebo que a fase 1 corresponde à fase de contacto entre o terapeuta e o paciente. Só no fim da fase 1 é que é possível estabelecer um campo de tensão mais uniforme que vai estimular os fibroblastos dormentes e reestruturar o corpo ou a região que estamos a influenciar com o toque.
Nas intervenções com exercício, com movimento, como podemos pensar a existência destas duas fases e como podemos usar este conhecimento a nosso favor? Penso que temos que considerar vários fatores:
  • pré-tensionamento do corpo, ou pré-organização
Por exemplo, o que eu faço no reformer quando peço que subam os ombros antes de esticarem as pernas. Esta pré-organização permite que a carga aplicada no corpo pelas molas seja mais eficaz logo de início porque todo o ROM do movimento vai ser aproveitado em fase 2. Se não fizermos este pré-tensionamento, parte do movimento vai ser usado primeiro da reorganização das fibras antes da criação do campo de tensão uniforme.
Mas um praticante pode ter um nível de tensão inicial, devido a tensão emocional ou outra, que necessita de uma organização inicial que lhe permita reduzir o nível de pré-tensão, que pode estar sempre numa fase 2 ou mesmo 3 em determinados pontos ou zonas.
A aferição da pré-tensão é essencial para a eficácia dos movimentos na reestruturação da estrutura do corpo usando movimento e depende da capacidade individual em "manipular", em controlar, a sua tensão de base. Daqui a importância das várias técnicas de autorregulação e todos os exercícios preparatórios do estado de receptividade do corpo à criação de "campos de tensão uniformes".
  • velocidade de execução do movimento
A velocidade de execução do movimento tem que permitir a manutenção do nível de carga correspondente à fase 2, de quasi-linearidade e maior uniformidade. A manutenção desta "qualidade" de deformação ou adaptação correspondente à fase 2 consegue-se de forma consciente, por parte do praticante, mas para isso é preciso que este tenha desenvolvida a capacidade de percepcionar/sentir e descodificar as informações internas do corpo, a propriocepção, a interocepção. Todo o trabalho de acordar as sensações internas e de descodificá-las tem que ser feito antes de poder dizer que o efeito da aplicação da carga corresponde a esta ou àquela fase da curva.
Acredito, por experiência, que é possível usar velocidades de execução mais elevadas e não perder a capacidade de sentir o movimento, mantendo os efeitos de fase 2 de adaptação à carga. Esta capacidade pode ser desenvolvida.
  • tempo sobre tensão
"time under tension", o tempo sobre tensão, corresponde à duração da ação da carga que confere um determinada tensão aos tecidos envolvidos. Lembrar aqui que não podemos falar em músculos porque não há determinação na aplicação da carga, os efeitos da carga não são seletivos, eles vão afetar toda uma região do corpo, onde todos os tipos de células e tecidos são envolvidos. Sabemos que o comportamento à aplicação de cargas nos diferentes tecidos e células é diferente mas queremos uniformizar, o mais possível a tensão da matriz extra-celular e do conjunto dos elementos que dão estrutura ao corpo denominados "fáscia".
O tempo sobre tensão pode permitir uma melhor "deformação" no sentido da maior uniformidade da tensão no corpo ou na zona de maior incidência da carga. No caso do trabalho do Leonid Byum e da Mariana Barreto, com a população com paralisia cerebral e outras doenças raras que afetam a estrutura do corpo, a aplicação da carga é feita de modo intermitente, lento e persistente. Falo do trabalho com as bolas e outros materiais com comportamento visco-elástico e as "pistolas de vibração".
Em movimento, nomeadamente em Pilates, será que devemos aumentar o número de repetições feitas lentamente, ou podemos antes variar a forma de aplicação da carga, variando os exercícios e as posições, mas mantendo a direção e a intensidade da carga aplicada, isto é, trabalhar uma mesma sensação de adaptação durante uma mesma sessão, usando diferentes exercícios e aparelhos, mais do que trabalhar formas da estrutura, formas do corpo...
  • Completa amplitude de movimentos, nomeadamente, não nos restringirmos aos movimentos "uni-articulares"
Desta forma, saímos da noção dada pela anatomia cadavérica de que existem partes individualizáveis no corpo e pela biomecânica tradicional de que é possível isolar pontos de rotação ou de articulação no corpo onde supostamente as forças são aplicadas. Lembrar que não somos "momentos" ou "instantes", somos "eventos", processo dinâmicos.
Usando regiões ou zonas alargadas do corpo para realizar movimentos, sem nos cingirmos ao que a anatomia cadavérica nos diz ser possível, podemos alargar a extensão da aplicação de tensão uniforme. Usando o exemplo do footwork no reformer, em vez de nos centrarmos na extensão dos pés, dos joelhos e das ancas, podemos (devemos) pôr a atenção no alongamento de todo o tronco, na continuação do movimento pelo alongamento do comprimento da cintura, das costelas...

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